Flaming Bodies 3847

É com muito prazer que anunciamos Flaming Bodies, a segunda exposição individual de Pedro Valdez Cardoso na galeria.

INAUGURAÇÃO
Quinta-feira, 16 de Abril | 18 – 21.30 H
DURAÇÃO
16.04 – 30.05.2026

~

Pedro Valdez Cardoso tem vindo a construir um percurso singular e assinalável no panorama da arte contemporânea portuguesa, marcado pela investigação em torno de um conjunto insistente de questões que, de forma mais ou menos evidente, sempre remetem para fenómenos ligados à experiência do corpo e à construção da identidade, assim como para uma avaliação crítica dos contextos e dispositivos que os (in)formam, regulam e condicionam. 

Trabalhando entre a escultura, a instalação e a produção de imagem, o artista tem por isso afirmado uma prática fortemente articulada entre o individual e o colectivo, o privado e o público, a partir da qual pôde criar um universo e vocabulário idiossincráticos, nos quais são recorrentemente convocadas figuras arquetípicas (máscaras, fantasmas, esqueletos...), materiais vernaculares (linhas, cordéis, têxteis, papeis...) e  procedimento provenientes das manualidades (costura, bordado, forragem, colagem...), os quais não só atribuem uma certa dimensão cenográfica e teatral às obras do artista (indiciando também a sua formação de base) como mais consequentemente permitem uma relação de imediato reconhecimento e familiaridade reflexiva. Nesse território, situado entre o espaço da representação e o da intimidade, e no qual as costuras que se vão encontrando tanto podem suturar como expor feridas difíceis de sarar, Pedro Valdez Cardoso faz por revelar as formas humanas e societais (e, no caso do artista, o ponto de partida é o das sociedades ocidentais) enquanto construções precárias e instáveis, continuamente atravessadas por forças contraditórias, onde os corpos surgem como superfícies de inscrição e restos de acontecimentos porventura insondáveis, em permanente conflito entre o racionalismo normativo das formas históricas e o fundo intempestivo e impensado que lhes subjaz. 

Flaming Bodies, a segunda exposição individual do Pedro Valdez Cardoso na Galeria NO·NO, prolonga todas essas preocupações e horizontes estéticos, fazendo-o por meio de uma reflexão sobre os mecanismos de formação e conflagração do desejo. A hipótese da combustão espontânea humana, indiciada desde logo pelo título do projecto, e que referencia a crença de que o corpo humano é capaz de imolar-se sem qualquer fonte de ignição externa, é nesse sentido deslocada de uma convicção pseudocientífica em virtude do poder metafórico de uma imagem-limite e de uma leitura lacaniana do desejo enquanto falta constitutiva e originária.

O que surge a partir daí é então uma concepção de humano enquanto entidade estruturalmente incompleta e inacabada, atravessada por uma energia volitiva que permanentemente o consome sem nunca se satisfazer totalmente. Onde o desejo se manifesta enquanto combustão irreprimível, ou potencialidade sempre presente de ignição, e o arder se mostra enquanto modo de revelação de tudo aquilo que, no corpo, sempre o pressiona e o impele. Algo que é, de resto, adensado por uma outra, embora menos evidente, referência sugerida pelo título desta exposição (e que encontraremos depois numa das obras presentes), e que alude ao filme de culto Flaming Creatures (1963), de Jack Smith, famoso pelo modo fragmentado, onírico e orgiástico com que explorou a sexualidade, desorientando expectativas estabilizadas e fazendo explodir distinções e posicionalidades de género. 

Contudo, não colocando apenas a ênfase no desejo erótico — do corpo cuja carne “arde” passionalmente —, Flaming Bodies visa mais determinante o modo como esse ardor é já um sintoma de um corpo que continuamente “arde” e se reconfigura linguística, social, cultural ou politicamente. E é justamente nessa encruzilhada, tanto sensível quanto simbólica, que as obras presentes nesta exposição se pretendem insinuar. Desde o piso o superior com “An history of violence” (2026) — uma estrutura feita em silicone rosa que simula a grade de uma janela, ali fechada a cadeado e oscilando entre a sedução táctil ou apelo de abertura e a imposição de um limite que se revela intransponível — e o conjunto de fotogravuras “Flaming Creatures” #1 e #2 (2020) — onde vemos os rostos de duas estátuas clássicas cobertos por uma espécie de máscara feita de imagens de conchas, que ocultam os seus traços canónicos substituindo-os por uma certa languidez metamórfica, informe e esquiva. Passando depois para o piso inferior da galeria, onde um conjunto de onze fotografias cobertas por vidro acrílico vermelho nos apresenta vultos ambíguos, entre o fantasma e o espantalho, produzindo uma espécie de ambiência inquietante e incandescente — “Skin” (2026) —, acentuada pelo estranho conjunto de luvas negras de borracha costuradas, entre o humano e o animal, o espaço doméstico e a reminiscência de práticas consideradas tabu — “A strange kind of love” (2026) — ambas as obras em forte contraste com a fragilidade quase melancólica da instalação composta por um pára-corpos revestido a papel kraft, fixo num dos pilares do espaço, e os nove galhos e folhas costuradas no mesmo material, ali dispostos pelo chão — “Aftersun” (2026). 

É pois num vaivém ininterrupto, entre norma e desvio, liberdade e interdição, segurança e perigo, pulsão e abatimento, visibilidade e ocultação, entre um provisório “eu” e uma qualquer alteridade que sempre aparece e modifica a totalidade, que Flaming Bodies encontra o seu lugar de possibilidade. Aqui, Pedro Valdez Cardoso opera sob um regime intermédio, onde os objectos se mantêm em zonas liminares, em estados indecididos, e o que vemos não são formas ou gestos estabilizados, mas condensações de algo que paradoxalmente tanto persiste e (nos) assombra, como existe sob a ameaça de desaparição. É nesse ponto de instabilidade intervalar que os corpos propostos pelo artista ardem.


DAVID SILVA REVÉS

~

PEDRO VALDEZ CARDOSO
Flaming Bodies
16.04 – 30.05.2026
_
Texto de exposição : David Silva Revés
Fotografia : Bruno Lopes 
Video : João Silva