Dobra Sol 1374

Susana Ventura

Dobra Sol



I
Um poema nasceu em mim. 
Quis silenciá-lo, contudo as imagens criadas pela Mariana e pelo Francisco agarraram-se ao meu corpo e não tive como me soltar delas, senão metamorfoseá-las em palavras. Ser-se passageiro e veículo de algo, que tomamos em nós, no nosso corpo, são características pré-humanas próprias às aves e às matérias vegetais. As sementes de plantas, os esporos e o pólen viajam com o vento e com certos animais, como borboletas e abelhas, germinando em lugares distantes daquele da sua origem e, por vezes, criando, nessas associações livres, novas espécies. O filósofo Michael Marder (cuja voz ouvimos no filme Palomacia, dos artistas) associa a ideia de passagem e de corpo-transportador (ou corpo-que-acolhe) ao princípio da génese da vida, que explica recorrendo ao conceito de dobra e ao exemplo das plantas. Estas acolhem, geram e disseminam formas de vida muito distintas, contribuindo para a criação de comunidades inter-espécies, as quais se tornam possíveis, precisamente, devido aos movimentos contínuos efectuados pelas dobras, que se dobram e desdobram, permitindo a passagem e o transporte de certas propriedades de um lado para o outro, de um ser para outro ser, que nasce dessa junção.
A dobra é o princípio da compossibilidade, como pensava Leibniz. Este princípio estende-se a qualquer expressão de vivência pré-humana ou humana, pois a vida efectua, apenas, ilusoriamente, uma linha recta, com origem no nascimento e o seu fim na morte. Pelo contrário, somos testemunhas vivas que a vida tece em nós dobras sucessivas. O tempo é, ele próprio, uma dobra (contrariando, também, a ilusão da linha traçada por Chronos), como podemos constar na memória (a actualização de uma memória pura - relembrando Bergson - efectua uma dobra em que passado e presente são simultâneos). A compossibilidade pode ser traduzida pela ambivalência da heterogeneidade, em si criadora de formas de vida díspares. As obras dos artistas fizeram nascer em mim um poema, das imagens floresceram palavras no corpo que as transporta, ecoando, uma outra vez e outra e outra, em quem vê as obras e em quem lê as palavras. A arte é, também, uma forma de acolhimento (“um acolhimento que não é uma retenção”, relembrando ainda Marder), que será característica mais de umas obras do que de outras. Aquelas que acolhem serão talvez as mesmas que efectuam, elas próprias, dobras sucessivas. 
A dobra expõe sempre um plano, enquanto oculta o outro, que de dobrado pode ser desdobrado num novo plano, distinto do primeiro, sucessivamente. O que é revelado no desdobramento já não remete para uma qualquer unidade originária, mas para uma outra, por vezes, distante: o início do universo ou da vida. As pétalas das flores, as folhas das plantas dobram-se na escuridão e abrem-se, desdobram-se, para acolher a luz, o calor e a água. O sol desdobra-se nas flores, desdobra-se em nós, dobra a superfície terrestre inteira e dobra a lua. Dobra a luz que se desdobra em sombras. As sombras desdobram-se em estranhos maravilhosos seres. Etéreos, passageiros, como nós, dobras de um poema. 

II
Em Dobra Sol, só se distinguem dois momentos pela sua sequência espacial (que poderemos compreender como um percurso intensivo desde a luz até à sombra ou escuridão, na qual a luz renasce sob a forma de ave ou de mãos, e nós regressamos, outra vez, ao sol), porquanto efectuamos, também em nós, no nosso pensamento, uma dobra. A luz - de que o sol é fonte primeira - desdobra-se sempre em sombra. As obras mais recentes dos artistas trabalham esta duplicidade constante entre luz e sombra na continuidade do seu trabalho sobre imagem-movimento e imagem-tempo. Tanto o movimento como o tempo são medidos, nas suas obras, por essa unidade indiscernível de luz-sombra. Nas sombras, percebemos formas que acordam a nossa memória, que é outra forma de tempo sobre a qual os artistas têm trabalhado. E raras vezes trabalham com simbologia. Esta é, geralmente, substituída pela utilização da geometria e da sua respectiva linguagem abstracta (ainda que nestes tempos, o desejo de paz seja expressão inseparável do que nos prende à vida). Neste caso, a dobra descreve (como no modelo barroco do conceito) relações geométricas complexas, que encontram no voo das pombas brancas algumas das composições possíveis, por sua vez, elevadas ao infinito (que é próprio da dobra, também) pela reflexão nos espelhos. A relação entre os seres etéreos e as pombas segue o princípio da compossibilidade que a dobra contém, na qual a centelha da vida percorre todas as matérias e - como as sementes, os esporos e o pólen no vento - cria mundos distintos, onde animal, vegetal e humano se desdobram em subtis metamorfoses (de que as mãos são indícios, ou mesmo, traços ou gestos). Nestes, será possível (como o título do filme Palomacia revela ainda) transformar a empatia (sobretudo a que decorre dos encontros inter-espécies) em comunidades reais.

III

Dobra sol 
sombra redobra 
Na flor dobra
 A cor desdobra.

Branca pomba 
no espelho,
 o tempo dobra 
no movimento 
desdobra.

Nas asas,
 duas mãos 
ou meias-luas 
E um sol. 

Dobra sol
 em mim.
 Flor serei
 Depois de vento. 

Susana Ventura. Texto de exposição para Dobra Sol, Mariana Caló e Francisco Queimadela 



MARIANA CALÓ + FRANCISCO QUEIMADELA
Dobra Sol
07.04 — 28.05.2022
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Texto de exposição : Susana Ventura
Fotografia de exposição : Bruno Lopes
Video de exposição : João Silva
Texto e voice-over / "Palomacia" : Michael Marder
Montagem : Maria Torrada
Agradecimentos : Rui Soares Costa, Kunsthalle Lissabon