Black jell-O birthday party 1998

É com muito prazer que anunciamos Black jell-O birthday party, a primeira individual de António Olaio na galeria !

ABERTURA :
5ª feira, 9 de Novembro, 19 – 22 H

DURAÇÃO :
01.11.2023 – 13.01.2024

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David Santos

texto de exposição 


O ser humano procurou desde sempre um sentido para a sua existência. Por palavras, gestos, cores ou sons, cada povo persegue o seu mito fundador sobre a origem do mundo, construindo assim uma “verdade” cuja veneração perpetua um equilíbrio, uma orientação face à complexidade daquilo que designamos por vida. Sobretudo a partir da tradição oral, cada cultura estabiliza as suas histórias e as suas lendas em torno de ideias simples mas profundas, visando uma amplitude de comunicação ou testemunho que possibilite uma partilha fecunda. A esse processo chamamos Cosmogonia. Produzidas na sucessão de gerações, as cosmogonias resultam de uma interpretação holística sobre a ligação da vida ao desconhecido, criando as condições de uma “totalidade” convincente. Esta conduz-nos, através de princípios míticos, religiosos ou pré-científicos, à justificação de uma origem da existência e dos seus significados, condicionando a nossa visão de mundo. Contar histórias, transmitidas dos mais velhos aos mais novos, constituiu desde cedo o princípio de toda a coerência entre a noite e o dia, a vida e a morte. De autoria coletiva ou indeterminada, a cosmogonia resulta enquanto expressão de comunidade, de um todo que afasta qualquer hipótese de individualismo, hierarquia e superioridade.

De modo diferente, as cosmologias têm por base narrativas escritas e tendem a afirmar o princípio da autoria, precisamente porque assumem uma fixação linguística e uma narratologia assinada, isto é, identificada com um sujeito individual, singular e nomeável. Menos figurativas do que as cosmogonias e mais abstratas, conceptuais e sistemáticas, as cosmologias perseguem os princípios e as leis da natureza que atuam desde sempre sobre a vida humana, abdicando assim do recurso à intervenção divina para justificar uma ordem do cosmos. Desde a noite dos tempos, como um conflito irresolúvel entre a luz e a escuridão, produz-se assim o caminho do sentido, o molde de uma ação sem bússola, capaz, porém, de nos manter presos às circunstâncias da vida e às suas hesitações.
Talvez influenciado pelas energias equatoriais dessa fronteira entre hemisférios, António Olaio, que nasceu no ano de 1963, no Lubango, em Angola, persegue há precisamente seis décadas a sua matriz cósmica. Individual, mas capaz de ativar as forças do nosso imaginário coletivo, o seu trabalho artístico convoca, há mais de quarenta anos, diversas dimensões disciplinares para acentuar na pintura a expressão de um medium intertextual, híbrido, cruzado ou mesmo sem disciplina, reinscrevendo uma narrativa complexa, louca e livre, entre referentes multidimensionais, da escultura à performance, ou da pintura ao vídeo e à instalação.

Neste sentido, podemos afirmar que a arte, para António Olaio, habita o limite e carrega consigo a contenda do fim. Tanto a sua arte como o seu discurso teórico ou performativo inserem-se nesse registro experimental da fantasia, do estranhamento desencadeado pela transmutação do real. Tarefa que não se deixa nunca confinar nos limites da inteligibilidade do mundo, que não se deixa perscrutar à luz do dia ou da ciência. Poético e paradoxal, como uma hiena no deserto, Black jello birthday party representa, em última análise, a expressão de uma origem e destino do mundo, a vida.

Jorge Luis Borges, mestre do labirinto e dos paradoxos, construiu a maior biblioteca de indecidíveis, entre tempestades mágicas, personagens e geografias perenes. É dele uma frase que sintetiza em parte a essência desta exposição: “Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real. Sonhei a dúvida e a certeza.” Por linhas, formas, cores e não-cores, apontamentos ou metamorfoses semânticas, António Olaio persiste no desenho infinito da sua cosmogonia pessoal, mas transmissível. Trata-se de uma ideia que, apesar do peso autoral da sua afirmação, inverte o estertor de toda e qualquer tentativa de cosmologia.
 
(versão original: texto da exposição Black jello birthday party, de 01.11.2023 – 13.01.2024)

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ANTÓNIO OLAIO
Black jello birthday party
01.11.2023 – 13.01.2024
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Texto : David Santos
Fotografia de exposição : Bruno Lopes 
Video : João Silva