ARACNE 995

Aracne: da experiência irrepetível da metamorfose


A exposição Aracne vem na continuidade de uma investigação artística sobre temas e tópicos, por vezes de referência clássica, que nos falam de questões da condição humana através de instalações sonoras e performativas, que podem integrar desenhos, em alguns momentos com uma forte componente espacial. Estes desenhos, sobre a parede ou em projecção vídeo, podem também ascender a uma componente funcional, sendo interpretados como pautas em que o espaço entre as linhas corresponde a uma nota interpretada por uma violinista, a própria artista, como no caso da obra “LN Performance”, de 2016, numa estreita relação entre espaço e tempo, movimento e suspensão. No seu trabalho a participação do espectador é estrutural, seja de forma directa, quando este é convidado a agir sobre elementos que compõem a obra, ou indirecta, quando a instalação escultórica e a sonoridade vocal e musical absorvem o seu trânsito no espaço da exposição, assumido como uma obra total.

Aracne é assim uma obra que agrega diversas camadas de conhecimento histórico, historiografia clássica, música e som na sua expressão contemporânea, além da intermediação de diversos meios que se desenvolvem entre a construção de marcenaria (o instrumento musical), a utilização de uma ferramenta de processamento digital do som e uma métrica que pensa o espaço como um corpo instrumental, uma câmara de ressonância iniciática para o espectador, que é sujeito a uma transformação performativa.

Contudo, Francisca Aires Mateus estabelece uma duplicidade entre dois princípios de conhecimento: o primeiro assenta nessa ideia de transformação, essa metamorfose que resgata a odisseia efabulatória de Atena e Aracne em Metamorfoses 1, o texto matricial do poeta Ovídio, que nos confronta com a vaidade, a inveja, e a cólera, mas também com a tomada de consciência e com a superação em prol de um bem maior, a proficiência e a sua expressão artística, poética e libertadora. O segundo princípio desenvolve-se através de um processo analítico e narrativo sobre a morfologia e as características biológicas das aranhas. Estes dois tópicos constituem uma peça sonora que se expande no espaço da galeria, estando plasmados em duas vozes de mulheres que lêem dois textos que nos colocam entre a efabulação e uma descrição científica, embora generalista, dos aracnídeos. A experiência do lugar e da obra só se concretiza com a acção do espectador quando este dedilha o instrumento, que reconfigura uma relação escultórica e arquitectónica com o espaço da galeria e com os intervalos das vozes, que sem se repetirem são introduzidos numa ordem aleatória entre a condição de Aracne e a vida natural das aranhas. Entre a mitologia e o repertório constitutivo destes seres essenciais à vida na terra. Entre a observação e audição dessas vozes e a acção do espectador sobre uma ou mais cordas, tecendo uma rede de relações de sentido que, embora irrecuperável, se projecta no tempo do acto e assim numa dimensão do imaginário individual e subjectivo de cada participante.

Tendo em conta toda a metodologia empregue nesta obra, Francisca Aires Mateus desenvolve um campo de possibilidades experimental e diferenciado para cada momento em que qualquer um de nós acede a este processo instrumental, cruzando narrativas, dispositivos multimédia, arquitectura, escultura e uma teia relacional que se constrói como um labirinto de sentido único. Nenhuma acção é reversível ou repetível. Apenas pode ser replicada sob as condições instrumentais da escultura/parede/teia/membrana, táctil e sensível como um tecido que se molda e refaz continuamente pela acção do corpo anónimo. Este corpo é transformador das vozes, que vão revelando na figura imaginária de Aracne a humanidade que a mitologia reinscreve em cada um de nós.

João Silvério


[1] ARACNE, Fable I, Book VI, The Metamorphoses of Ovid (Trad. Henry T. Riley), Londres, Bel l& Daldy, 1871.