Investigações de um peixe dourado 961

O Carlos falou-me do seu peixinho negro — companhia de atelier —, que lhe impusera não só a necessidade de cuidado mas que igualmente lhe determinara, justamente pelo compromisso em favor do ritmo fisiológico da pequena criatura, a criação de um outro ritmo, agora humano, de viagem diária e comparência a esse lugar tão essencial à prática artística,  onde o pensamento vagueia e experimenta a espessura de um tempo-outro, saindo da cabeça e fazendo-se mão, de modo a participar de livre direito na assembleia do real. 

Se acreditarmos na indiferença que qualquer peixe doméstico possa ter face ao que está para lá do mundo próprio que é o seu aquário, estaremos, no entanto, redondamente enganados ao perceber que o do Carlos lhe mostrou exactamente o contrário. Talvez por inveja benigna, talvez por pura contaminação de posturas e fazeres, aquele peixinho negro começou também a transformar-se, no seu caso através da única coisa que lhe estaria à mão — o seu próprio corpo —, lentamente se transfigurando num exímio nadador dourado. 

Como o Carlos me disse, “era já difícil perceber quem observava quem”; ambos se contemplavam mutuamente, reconhecendo no outro uma semelhança cujo resultado faziam aparecer, mesmo que esse acontecimento fosse o de uma dialética inconsciente. Se da efectiva consciência dessa afinidade por parte do peixe pouco poderemos dizer com a devida certeza, é, ainda assim, mais razoável imaginarmos o espanto maravilhado do Carlos ao presenciar essa transformação de cor e gradualmente compreender que havia aí uma certa familiaridade, da mesma forma que a potência de uma singularidade absoluta. 


Investigações de um peixe dourado constitui, no mesmo plano, o relato desse assombro, um livre decalque do percurso daquela transfiguração, e, também por isso, a possibilidade de que tal experiência possa agora suceder em nós. Não se trata, porém, já do peixe do Carlos, mas sim do arquétipo do seu movimento, num afastamento (que é também uma paradoxal aproximação) próprio de toda a representação. 

Mas, não sendo esse peixinho, agora dourado, que nada ainda no aquário de um atelier de Vila do Conde, é ainda o seu brilho que nos chega nesta espécie de tótemes escultóricos e reluzentes que olhamos e que nos devolvem o olhar numa dinâmica de conhecimento — se quisermos: de investigação — intercruzada. Por isso, se esse brilho nos toca desapoderando e se a atmosfera imersiva desta exposição nos parece surrealizante — um estranhamento quase lynchiano —, entrando nós nesta espécie de aquário metafísico onde o mesmo peixe nos é apresentado em três momentos de um processo de alquimia mutante, é porque a experiência dessa mutabilidade — a do Carlos, a nossa: a partir do peixe — é sempre, também, a experiência de um mistério. É o pressentimento daquilo que se dá como excesso no interior da física e dos corpos, a compreensão de uma qualquer insondabilidade que é, ao mesmo tempo, a radicalidade mínima e força mais profunda do real.  

Tendo visto o seu peixe a modificar-se, o Carlos entendeu (e)afectivamente essa verdade enigmática que, no fundo, é a vida a fazer-se: cambiante, metamórfica, transdutível — produtiva. Ela sobrevém, livre, na metamorfose do peixe, mas dá-se também na mão alquímica do artista (de que a folha de ouro é o produto mais evidente e sinal absoluto) que mima e participa, através da sua poiesis, as forças gerativas da vida. Quanto a nós, nesta exposição, ela dá-se na hapticidade dos nossos olhos, nas energias captadas face ao que vemos e sentimos, para fazer-se integrar no nosso corpo e de novo voltar a cindir-se, mesmo que seja muito mais tarde, reproduzindo-se por outros caminhos, corpos e tempos. 


DAVID SILVA REVÉS