É com muito prazer que anunciamos ECHOES OF A DISTANT TIME, a primeira exposição individual de Miguel Marquês na galeria.
INAUGURAÇÃO
5ª Feira , 03 de Abril | 19 – 21.30 H
–
DURAÇÃO
03.04 – 31.05.2025
~
É difícil encontrar vestígios de vida humana nestas fotografias de Miguel Marquês e, contudo, a atracção que o cenário pós-apocalíptico do edifício inacabado no Prior Velho inspirou no fotógrafo assinala precisamente que o betão armado que vemos nas imagens, o namoro do lugar lúgubre, a repetição, dão conta de um género de fixação a que apenas a nossa espécie está sujeita.
Miguel Marquês anda por ali (enquanto humano) e parece à procura, parece à beira de encontrar alguma coisa. Dir-se-ia que procura alguém, um sinal de vida, uma inscrição. Parecendo-se, por vezes, com fotografia de arquitectura, as imagens das fundações do edifício são anti-arquitectura, porque Miguel se deixou prender por aquilo que é prévio à nossa ocupação.
Talvez aquilo que move o fotógrafo seja menos a história do que a promessa da história. Para que serviria aquele lugar? Qual viria a ser o aspecto da sua ocupação — e as caras e vozes dos seus ocupantes?
É o inacabamento da estrutura que prende o fotógrafo, ocasionais derrames, vislumbres de espécies botânicas infestantes, que brotam espontaneamente devido ao contacto do edifício com a natureza, que o vai deteriorando e naturalizando. Mesmo que diante do colosso fôssemos levados a pensar que aquelas paredes estarão erguidas no Prior Velho ao longo de séculos, e que apenas virão abaixo por intervenção humana, as imagens de Miguel Marquês dão conta do modo como a natureza toma conta de todos os nossos despojos.
Por estranho que pareça, o edifício abandonado é, hoje, porventura, um albergue de animais de rua e de pessoas sem casa: a sua aridez não impede que o tomemos como uma estalagem de porta aberta. Quem ali se acoitará da chuva?
E então as imagens de Miguel Marquês perdem a crueza porque nos deixam adivinhar presenças, ainda que fantasmáticas. Talvez Miguel Marquês tenha fotografado uma casa aberta, na cidade, e não um lugar vazio. Talvez as casas abertas, na cidade, pareçam sempre lugares abandonados. O que nos diz este albergue triste sobre as nossas cidades e sobre nós? Esta intimação é o correlato da obsessão de Miguel Marquês por este lugar, que fotografou como se nos reenviasse a nós a pergunta, sem que tenha tido a tentação de a responder.
DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA
Janeiro de 2025
~
ECHOES OF A DIFFERENT TIME
Miguel Marquês
03.04 – 31.05.2025
_
Texto de exposição : Djaimilia Pereira de Almeida
Fotografia : Bruno Lopes
Video : João Silva
Montagem: Pedro Canoilas
Agradecimentos: Rui Neiva
INAUGURAÇÃO
5ª Feira , 03 de Abril | 19 – 21.30 H
–
DURAÇÃO
03.04 – 31.05.2025
~
É difícil encontrar vestígios de vida humana nestas fotografias de Miguel Marquês e, contudo, a atracção que o cenário pós-apocalíptico do edifício inacabado no Prior Velho inspirou no fotógrafo assinala precisamente que o betão armado que vemos nas imagens, o namoro do lugar lúgubre, a repetição, dão conta de um género de fixação a que apenas a nossa espécie está sujeita.
Miguel Marquês anda por ali (enquanto humano) e parece à procura, parece à beira de encontrar alguma coisa. Dir-se-ia que procura alguém, um sinal de vida, uma inscrição. Parecendo-se, por vezes, com fotografia de arquitectura, as imagens das fundações do edifício são anti-arquitectura, porque Miguel se deixou prender por aquilo que é prévio à nossa ocupação.
Talvez aquilo que move o fotógrafo seja menos a história do que a promessa da história. Para que serviria aquele lugar? Qual viria a ser o aspecto da sua ocupação — e as caras e vozes dos seus ocupantes?
É o inacabamento da estrutura que prende o fotógrafo, ocasionais derrames, vislumbres de espécies botânicas infestantes, que brotam espontaneamente devido ao contacto do edifício com a natureza, que o vai deteriorando e naturalizando. Mesmo que diante do colosso fôssemos levados a pensar que aquelas paredes estarão erguidas no Prior Velho ao longo de séculos, e que apenas virão abaixo por intervenção humana, as imagens de Miguel Marquês dão conta do modo como a natureza toma conta de todos os nossos despojos.
Por estranho que pareça, o edifício abandonado é, hoje, porventura, um albergue de animais de rua e de pessoas sem casa: a sua aridez não impede que o tomemos como uma estalagem de porta aberta. Quem ali se acoitará da chuva?
E então as imagens de Miguel Marquês perdem a crueza porque nos deixam adivinhar presenças, ainda que fantasmáticas. Talvez Miguel Marquês tenha fotografado uma casa aberta, na cidade, e não um lugar vazio. Talvez as casas abertas, na cidade, pareçam sempre lugares abandonados. O que nos diz este albergue triste sobre as nossas cidades e sobre nós? Esta intimação é o correlato da obsessão de Miguel Marquês por este lugar, que fotografou como se nos reenviasse a nós a pergunta, sem que tenha tido a tentação de a responder.
DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA
Janeiro de 2025
~
ECHOES OF A DIFFERENT TIME
Miguel Marquês
03.04 – 31.05.2025
_
Texto de exposição : Djaimilia Pereira de Almeida
Fotografia : Bruno Lopes
Video : João Silva
Montagem: Pedro Canoilas
Agradecimentos: Rui Neiva