¿De qué casa eres? Episodios de un cotidiano. Del bando republicano de la Guerra Civil Española 792

¿De qué casa eres? Episodios de un cotidiano. Del bando republicano de la Guerra Civil Española é a primeira exposição individual de Ana Pérez-Quiroga (APQ) na galeria NO⋅NO, em Lisboa.

Nesta mostra, APQ apresenta mais um desdobramento do trabalho ¿De qué casa eres? que tem como motor, a pesquisa em torno da experiência de vida da sua mãe. Ângela Petra, filha de pais republicanos, com quatro anos de idade, em plena guerra civil espanhola, de um dia para o outro, teve a sua morada mudada para a Rússia. Ângela Petra regressaria a “casa”, apenas duas décadas mais tarde, adulta e formada em medicina, para, passado pouco tempo, se mudar novamente, desta feita, para Portugal, onde vive até hoje. 

Se os “episódios” explorados por APQ nas exposições anteriores extravasavam sempre a relação emocional da história pessoal de que partem, explorando dimensões estruturantes, como a história, a sociedade ou a política, nesta mostra, com um foco temático e imaginário na guerra, APQ propõe “abrir” a série de trabalho ¿De qué casa eres?, ao presente.

Amiudadamente, o nosso presente histórico – político, social, e agora, a crise pandémica e sanitária que atravessamos – é descrito em tempo real por um discurso que utiliza termos resgatados da guerra e por metáforas bélicas. Expressões como: “campo de batalha”, “contra o inimigo”, “guardar munições”, “reunir armas”, “viver nas trincheiras”, etc., têm vindo a integrar a linguagem que conta o nosso presente. O relato sobre o mundo em que vivemos, com a aceleração da sua transmissão através das redes sociais, depara-se com a guerra da Pós-Verdade e suas variantes. Agora, numa realidade ultrapassada pelos cenários distópicos, a linguagem, atabalhoadamente, procura atribuir novos significados a palavras antigas. 

A utilização da linguagem no trabalho de APQ é recorrente, nomeadamente nas frases, expressões ou divisas que materializa em peças-néon. A escrita em néon confere à linguagem – ao discurso – um carácter escultórico, relacionando-se com o uso do espaço pelo corpo. Creio, no entanto, que nesta exposição a linguagem desempenha um papel diferente: não há a escrita-néon (nem a escrita-bordada, para dar um outro exemplo de materialização da escrita no trabalho de APQ) de frases pessoais. Ao invés, há a inscrição, com spray sobre tela, tal como é feito em bandeiras ou estandartes, de palavras de ordem, respigadas de diferentes tempos, geografias, lutas, revoluções, teatros de guerra. Os slogans, por definição, traduzem pensamentos que identificam princípios, ideais, revoltas… de uma dada comunidade. A tensão entre o pessoal e o político, premissa eminentemente feminista, é facilmente detetável nos usos que APQ faz da linguagem. Mas se pensarmos que APQ usa a linguagem como um material, conseguimos traduzi-la para a escolha dos objetos, para o grão da voz, para o vento que sopra sobre um corpo numa paisagem.

O pensamento dos artistas caracteriza-se pela liberdade com que atravessa fronteiras conceptuais, materiais ou temporais. É por isso que a leitura a contrapelo do passado no presente que APQ apresenta é-nos hoje vital. Porque, ainda que “Separados, estamos juntos.” (“Séparés, on est ensemble.” Mallarmé) e vivemos o mesmo presente.

Maria do Mar Fazenda, 31/10/2020