A transição entre estados é, geralmente, entendida como decorrente de alguma fluidez, talvez por culpa da observação empírica a olho nu, das transformações mais quotidianas dos estados de sólido para líquido, ou de liquido para gasoso. Ou seja, observar uma panela de água a ferver é ver dois estado em simultâneo, o líquido e  o gasoso, o que nos sugere uma ideia de continuidade. No entanto, esta transição é completamente abrupta. Se excluíssemos a variação de temperatura no volume resultante das diferentes proximidades à fonte de calor, considerando portanto uma situação hipotética em ambiente controlado, na qual uma linha de gotas de água no seu estado líquido era exposta, exactamente ao mesmo tempo, a uma temperatura de 100ºC veríamos então essa linha de água transformar-se imediatamente em vapor. Esta transformação representa por isso uma ruptura absoluta com o estado anterior, implica uma total reinvenção da existência enquanto coisa e cuja percepção ontológica se manifesta na própria terminologia — não é água em diferentes estados; é água, gelo e vapor.

Para esta ideia de transição abrupta Søren Kierkegaard, filósofo Dinamarquês do início do sec. XIX, introduz a noção de “salto” referindo-se ao método de mudança para o terceiro, e último, estágio da vida humana, o estágio religioso. Não nos detendo na análise à teoria de Kierkegaarg, assumamos que esta transformação, por implicar uma alteração do sujeito ao seu nível mais profundo — uma mudança no próprio ser do indivíduo —, não é passível de seguir um código racional e, por isso, não é facilmente explicável ou interpretável. Aceitar esta condição da transição enquanto transformação implica reconhecer a inevitabilidade desta alteração independentemente de uma condição evolutiva, uma vez que não existe gradação, e sem recorrer a uma autoridade lógica. Esta condição torna-se mais concreta se, à semelhança de David F. Swenson em The Anti- intellectualism of Kierkegaard, tomarmos como exemplo a lei da inércia de Newton considerando a alteração do estado de repouso de um objecto para o de movimento. Ocorrendo a mudança entre estados por interferência de uma força externa ao sistema inicial e motivação para a alteração é, por isso, “transcendente” e “não-racional”. O salto, tal como descrito por Kierkegaard não corresponde a um momento específico e não depende de uma construção pessoal intencional mas ocorre quando se deixa de querer ser para se passar a ser, sem razão justificável, e é, por isso, um feito de convicção, de fé.

Leap of Faith [salto de fé] surge como resposta à proposição de inauguração da no-no, que resulta de uma transformação que é uma refundação. Referindo-se simultaneamente à tarefa de construir um projecto galerístico e ao estado de espírito que motiva o novo enquadramento da galeria o título da exposição remete para um acto de aceitar ou acreditar em algo para além dos limites da razão. Tal como o “salto” de Kierkegaard representa a alteração do estado de cepticismo para o de crença, as obras apresentadas exploram essa aceitação além de uma racionalidade como sistema de validação individual do objecto artístico, colocando sobre o espectador o dever de aceitar as interpretações das obras e das relações entre elas. O mesmo fenómeno ocorre como condição fundamental e caracterizadora do processo de criação artística. É na passagem do conjecturar para o acreditar que um trabalho deixa de ser um objecto e se torna obra, sem grande razão aparente.
As obras seleccionadas recuperam o conceito Kierkegaardiano da transição de estados percorrendo de forma informal temas inerentes a esta condição como a aceitação, o oculto, o desconhecido, o irracional e a vontade. Estas leituras metafísicas são, no entanto, subvertidas quer pela fisicalidade das obras quer pela referência à mecânica do salto através de representações de movimento, transportando um sentimento de instabilidade e vertigem. A transição entre estados abordada nas obras é, assim, intercalada com elementos de caracterização da índole humana, como o medo, a hesitação e o erro que resultam em sensações de falta de controle instigadas por movimentos vacilantes, objectos frágeis e a propensão de queda eminente. Assim, a exposição remete-nos para uma relação terrena, de objectos e sentimentos que evocam uma condição mundana da passagem entre estados.

Miguel Mesquita, Maio 2020